quarta-feira, 1 de junho de 2016

Tendências, Tempo e "Teoria geral do Emprego, do Juro e da Moeda"

Semana passada comecei a ler um livro muito interessante sobre tendências, por isso hoje passarei grande parte desse post referindo-me à ele. O livro chama-se "Sociologia das Tendências" de Guillaume Erner, sociólogo francês especialista em sociologia do consumo. O livro trata de várias tendências e do papel que elas representaram na sociedade, sempre atentando a aspectos da lógica de consumo, de mercado.

Entretanto, uma parte específica do livro me chamou muita atenção. O tópico abordava o concurso de beleza de Keynes, para explicar como funciona o mercado das tendências. Vamos falar dessa teoria primeiro então. Keynes, para explicar as escolhas do mercado de ações, inventou um concurso de beleza fictício. Nesse concurso de beleza temos 6 rostos a serem escolhidos como os mais bonitos dentro de 100. O papel dos jurados é escolher os 6 rostos mais bonitos, com a especificação de que, ganhará o prêmio o jurado que mais se aproximar do resultado final (os 6 rostos mais votados). Então, percebe-se que não se trata apenas de escolher os rostos de sua preferência, mas de escolher os rostos que serão de preferência da maioria. E mesmo assim, cada jurado teria que supôr que os outros jurados estariam usando a mesma lógica de: "particularmente, eu votaria nesse rosto, mas acho que aquele outro será mais votado".  Deu um nó na cabeça? Vamos usar as palavras de Keynes: "Não se trata de escolher os rostos que, no entender de cada um, são realmente os mais lindos, nem mesmo aqueles que a opinião geral considere realmente como tais. Alcançamos o terceiro grau, no qual empregamos a nossa inteligência em antecipar o que a opinião geral espera que seja a opinião geral" (Keynes, J.M. Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, 1936.)

Ufa. Mas o que isso tem a ver com tendências? E com consumo? Tudo. Na verdade, isso explica exatamente como as empresas tentam criar seus produtos: partir da opinião média para tentar decidir o que a opinião média espera dos produtos. Ou seja, aquilo que os criadores querem criar é preterido por aquilo que as empresas acreditam que os consumidores querem que eles criem. Mas isso é ruim para a moda? Bom, talvez não para o consumidor que, independentemente da tendência, encontra sua subjetividade na própria combinação  de elementos (Lipovetsky). Entretanto, se os criadores estiverem sujeitos e submissos às tendências, a subjetividade deles passa a ser comprometida, e por consequência, a moda passa a ser refém do tempo e da opinião média.
Quando a moda é refém de um tempo, encontramo-nos em situações em que a tendência na verdade é regra, e todos vestem-se da mesma forma, agem da mesma forma, tem as mesmas preferências e os mesmos gostos. Mesmo que não sejam de fato gostos, mas imposições. Nesses momentos, nota-se a padronização do ser humano, bem como o surgimento das contraculturas.


Então não é à toa que, de tempos em tempos, escutemos coisas como "todas as lojas vendem as mesmas roupas" ou "as pessoas andam todas iguais". Para os que não estão de acordo com a opinião média, isso tudo pode ser bem desinteressante. Seria interessante decidir, pelo menos uma vez, qual é o rosto mais bonito, ou o melhor produto, ao invés de esperar que outros tentem especular o que eles acham que nós achamos, até porque, na vida, na moda e no mercado de ações, as pessoas erram. Beijos de NICO.

Links:
http://madmaninvest.blogspot.com.br/2013/01/concurso-de-beleza.html
Este é o PDF para o livro "Teoria Geral do Emprego, do Juro e da moeda". A analogia do concurso de beleza está na página 166:

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Modelos, Marketing e Magreza excessiva

Vamos falar um pouco sobre os padrões da moda?
Até então esse tem sido o século da aneroxia, da bulimia, da depressão,  e do "quer perder 10kg em um mês?". Mas o que esses padrões de fato representam para a moda? Quem ganha com isso? Por que uma garota beirando a inanição pode vender uma peça melhor do que uma garota de padrões médios?

Vamos começar falando do produto. Quando estilistas e publicitários escolhem garotas magras e altas (e geralmente brancas) para suas campanhas, eles estão na verdade pensando na melhor forma possível de vender seu produto. Isso incluí não apenas o rosto e o corpo que irão moldar o produto, mas também um ideal de beleza, de vida, de sucesso. Assim, o objeto (seja uma roupa, um sabonete ou um imóvel) irá incorporar esse ideal na mente do consumidor. No caso da moda, o negócio é vender a roupa em movimento, por meio dos desfiles. Os clientes querem ver como a roupa fica no corpo, se ela marca, se ela é curta demais, comprida demais... Mas, sinceramente, o comprimento e o caimento de uma roupa na Gisele Bundchen está longe de ser o mesmo do que na mulher média brasileira, que tem entre 1,58 e 1,64 e usa manequim entre 42 e 44. Se é pra mostrar uma visão de medidas que não condiz com a realidade por que então não expor as roupas em cabides? Foi o que a Osklen fez na SPFW desse ano: roupas em cabides, contato com os tecidos, sem modelos.

Fora a questão dos padrões serem irreais, ainda precisamos discutir se esses padrões ainda condizem com o que as pessoas julgam ser "mais bonito". Hoje em dia, o convencionado como mais bonito é o corpo "saudável", entre aspas porque esse corpo é muitas vezes atingido por meio de intervenções cirúrgicas, e que pode ser representado pelo shape Kim Kardashian. Então, se o padrão de beleza é representado por Kim Kardashian, por quê as  marcas ainda querem desfilar suas roupas com Kendall Jenner? De todo jeito são dois tipos diferentes de corpos quase inatingíveis: um muito magro e alto, outro  perfeitamente curvilíneo.

Com relação à saúde, vale falar da lei aprovada na França em abril de 2015, que proíbe que modelos com IMC (índice de massa corporal) menor do que 18 trabalhem em campanhas ou desfiles. O objetivo da lei era impedir o incentivo à anorexia, doença que afeta muitas jovens entre 14 e 19 anos, principalmente por tentarem se encaixar no padrão magérrimo de beleza européia. Com a lei, modelos abaixo do peso saudável não poderiam trabalhar em funções (desfiles e campanhas) que as expusessem como um modelo a ser seguido. Dessa forma, jovens por todo o país (e pelo mundo) não seriam incentivadas a correr atrás de um padrão doentio, que nada mais faz do que fazer crescer nas estatísticas o números de casos de anorexia, bulimia e depressão.
Felizmente, estamos vivendo uma era de aceitação à diversidade, com várias marcas tentando promover-se com o slogan de que todo corpo é belo, de que toda mulher é maravilhosa, de que ser feliz é sentir-se bem consigo mesmo. Mesmo com esses esforços amigáveis, o inegável é que os padrões ainda existem e estão à solta, causando mais mal do que bem.


Alguns esclarecimentos:  Magreza não é sinônimo de anorexia. Doentio não é ser magro, doentio é enfiar na cabeças das pessoas que elas precisam ser. Pessoas magras também sofrem preconceito, e muito, portanto, não diminuam o sofrimento delas, OK? Beijos de NICO.

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quinta-feira, 12 de maio de 2016

Bom, Básico e Barato

Para onde foi a camiseta branca de 30 reais?
Hoje em dia, com o aumento exorbitante das opções de compra, assim como da velocidade de surgimento de tendências, cada vez tem sido mais difícil encontrar aquela camiseta branca simples, lisa, acessível e de qualidade (tecidos confortáveis e um bom acabamento). E, como causa e consequência dessa dificuldade, temos presenciado dois processos distintos, mas correlatos: o esquecimento das roupas "boas e baratas", e a "gourmetização" da indústria varejista.

Comecemos pelo básico, ou melhor, pelas básicas. Outro dia li uma matéria da Exame que descrevia o processo de decadência da marca Hering, que sempre foi conhecida por seu estilo básico, liso, e com tecidos de qualidade. A matéria está disponível aqui para quem quiser se aprofundar, mas, resumidamente, o que aconteceu foi que o grande sucesso da Hering fez com que ela decidisse abrir várias lojas e se arricasse no jogo das tendências. O resultado disso foi: a marca não conseguia supervisionar todas as suas unidades, e também acabou perdendo sua essência na corrida para alcançar as tendências.  Na minha opinião, a Hering tinha uma receita infalível e atemporal para o sucesso: focar o produto no consumidor que precisa andar vestido, não quer pagar caro, e não aceita ficar desconfortável com um tecido que esquenta ou que pinica. Mas, pra quê se contentar com a excelência quando você pode arriscar competir num jogo de mercado das grandes varejistas como Renner, C&A, Riachuelo?  Mas sei lá, a Hering ainda pode renascer das cinzas e retomar o foco para o "bom, básico e barato", ou então, espero eu, alguma marca nova cumprirá esse papel.

Mas qual o problema da Hering querer competir com as grandes redes de varejo? O problema é que essas redes investiram em um modelo de vendas que, por mais que agrade uma amostra muito grande de consumidores, segue um modelo oposto de lucratividade, isto é, a venda em massa de produtos de qualidade menor, com tecidos, de regra, mais baratos, nas mais diversas estampas e cores, e com preços que variam, do assustadoramente baixo ao absurdamente alto.  Em uma matéria de Fevereiro da Istoé Dinheiro, foram apresentados dados de aumento do preço médio de varejistas gringas como Topshop e H&M, que foram de 50% e 83%, respectivamente, em um período de três anos. Isso significa que os preços nessas lojas populares estão subindo, e subindo muito. O equivalente se traduz também no Brasil em redes como a C&A e a Riachuelo.

Além disso, ao falar de goumertização do varejo, não se pode ignorar o fenômeno das parcerias "fast fashion + grifes" que tornou-se recorrente nos últimos tempos. Que tal Riachuelo+Versace? Ou Riachuelo+Lagerfeld?  O problema é que existe uma certa ilusão do consumidor de estar consumindo de fato um produto de grife, quando na verdade os preços ficam mais pra Versace e a qualidade mais pra Riachuelo. Afinal de contas, o preço pago em uma peça da Riachuelo assinada por Donatella Versace pode ser o mesmo, ou até maior, que o de uma peça Versace original comprada em um brechó. O problema é que no Brasil brechó ainda é tabu...  


Então, como conclusão, percebe-se que estamos rodeados de opções de compra e ao mesmo tempo com as mão atadas, uma vez que os básicos ficaram complicados demais e as peças do varejo custam muito mais do que o preço que valem. E nessa onde de fast fashion é tudo tão automático que a gente acaba não parando pra pensar nas pessoas que fabricam as roupas, em quanto do preço é na verdade imposto, em quanto o tecido realmente vale, entre outras questões. Em tempos de crise, não custa nada lembrar do consumo consciente. Beijos de NICO.

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sexta-feira, 6 de maio de 2016

Cuba, Chanel e Che

Vamos falar de Chanel em Cuba?
O desfile foi histórico, as roupas estavam lindas,  sem falar no impacto na mídia que o evento causou, com Gisele, Vin Diesel, e todas as demais celebridades que aterrissaram na capital cubana só para poder acompanhar de perto a coleção cruise da grife francesa.
Mas esse também foi o dia em que a Chanel banalizou a história de Cuba, ou homenageou a gradual abertura do país ao capitalismo, ou simplesmente usou Havana como salão de festas e debandou logo em seguida, assim como todos os convidados do desfile. Nesse aspecto, o que restou para Cuba? 5 minutos de fama e os rastros das peças da Chanel que passaram por lá, já que as roupas não tem porquê ficar por lá, afinal, ninguém compra Chanel em Cuba.

Falando em absurdo, o que foi aquilo Gisele? Você já é bastante coisa, precisa ser Che Guevara também? Tudo bem que meio mundo anda por aí com a cara do indivíduo estampada no peito, mas a meu ver, é num tom de homenagem ou então pelo menos de "olhem pra mim, eu sou comunista", não sei, cada um usa a camiseta que quiser com a cara de quem quiser e não tem que ser problema pra ninguém isso. Agora ir até Havana de roupa vermelha e boina preta, rica e glamurosa, pra ver o desfile da Chanel no Paseo del Prado foi uma ostentação, uma provocação, uma crítica interessantíssima, ou uma brincadeira de mau gosto.

Então acho que isso significa que estamos vivenciando a abertura de Cuba para um novo mundo, certo? Um mundo de Chanel e Rolling Stones, passando pela consagrada visita do presidente dos Estados Unidos. Essa semana Cuba foi a virgem de  57 anos que, em pleno 2016, resolveu ceder ao pecados capitais, ou melhor, do capital.
 O paradoxo interessante é que para presenciar isso que chamamos de "abertura", Cuba vivenciou na última terça feira (03/05) alguns "fechamentos". A rua, que sempre foi pública, encontrava-se fechada apenas para os convidados e a organização do desfile, assim como a galeria Factoria Habana, onde acontece a exposição fotográfica de Lagerfeld, e que, nas palavras de Pablo de Llano para artigo no El País, é "de propriedade estatal mas nesta tarde com entrada controlada por lista". Cuba quis viver a abertura, agora há de viver a exclusão: o desfile foi feito em Cuba, inspirado em Cuba, com charutos cubanos, salsa, Gisele BundCHEn, mas de cubanos mesmo não teve muito, fora , é claro, a presença do modelo Tony Castro, neto de Fidel, que, dizem por aí, achou o desfile ótimo.

Imagina como os franceses se sentiriam se um designer cubano fechasse a Champs-Elysées para um desfile inspirado na França, cheio de boinas da Revolução Francesa, croissants, moustaches, blusas listradas de gola rolê... Sei lá, só jogando no ar... Daria um bom plot-twist. Beijos de NICO.

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PS: Minha mãe andou reclamando que os textos eram longos demais. Toma essa: menos de 500 palavras. E feliz dia das mães.                                     

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Ronaldo Fraga, Refugiados e Riachuelo

Em tempos da semana de moda de São Paulo, o SPFW, me peguei com a seguinte dúvida: pra que serve tudo isso? Desfiles, modelos , o front row, a imprensa? Se os desfiles são feitos pra apresentar os produtos por que então o consumidor final fica alheio à eles? Ou então qual a função das modelos? Ser um cabide para as roupas desfiladas ou tornar as roupas um objeto de desejo para quem vê? Tudo isso parece parte de um mundinho glamuroso vivido por estilistas, modelos, imprensa e celebridades,  que por meio de uma inacessibilidade para com as massas , esquecem-se  de seu consumidor final. Talvez por isso muitas marcas de "renome"no Brasil acabem falindo, não é mesmo?  Valem-se da opinião crítica das grandes revistas de moda (que nada mais fazem do que puxar o saco de todo mundo), e ficam tão presas a esse universo de fantasia e feedbacks positivos que ignoram o fato de que aplausos não geram lucro. Vamos lembrar por um instante da falecida Neon? A marca de Dudu Bertholini e de Rita Comparato teve 10 anos de sucesso e de desfiles destruidores, mas teve que fechar as portas pois não tinham o tato para lidar com os negócios (encerrando seus trabalhos com uma dívida de 2 milhões). À época, muitos culparam o governo pela falta de incentivo à indústria da moda, o que não deixa de ser verdade, afinal, como pode um país com tanto incentivo ao consumo e com uma população que, segundo Lipovetsky, tem "paixão pelo luxo", ainda não possuir uma lei de incentivo a essa indústria? Entretanto, não se pode apontar o dedo somente para o governo, afinal, todas as marcas viveram essa crise, mas nem todas afundaram, pois muitas tiveram a capacidade de se reinventar, de perceber que, durante as crises, o brasileiro quer o luxo à preço de banana.

Falando em luxo acessível, não há nada mais (e menos) representativo atualmente do que a parceria Karl Lagerfeld e Riachuelo. Na página do blog, comentei que a coleção da fast fashion tinha sido "apenas ok", o que é um elogio muito grande, dadas as condições. A verdade é que houve um esforço muito grande, diria monumental, para promover essa parceria, com previews, aparecimento de uma das bolsas em uma novela da Globo, revistas e sites de todos os tipos criando o maior bá-fá-fá, para que na terça -feira (26/04), fosse apresentada o que pra mim foi uma reciclagem da ponta de estoque da Riachuelo de 2012, na qual foram estampados milhares de rostinhos e nomes de Karl Lagerfeld e de sua gata. A coleção não foi inspirada no talento do estilista, em sua high-fashion, mas sim na própria pessoa do estilista, tal qual, se foi pensado por Lagerfeld, foi um egocentrismo vulgar , se foi pensado pela Riachuelo, foi a perda de uma grande oportunidade. E não vou nem falar da qualidade dos tecidos... Se a ideia da parceria era implementar o luxo acessível, eu diria que eles pecaram duas vezes: uma na coleção, na qual faltou o "luxo", outra nos preços, nos quais faltou o "acessível". (E sobre a notícia da Vogue que diz que a parceria "emplacou gol" no SPFW, só se foi um gol contra em um jogo da série D, ou o "gol de honra" do Brasil no 7X1)

Ainda no clima de SPFW, falemos de saldos positivos. O desfile de Ronaldo Fraga que aconteceu na segunda feira (25/04), teve como tema os refugiados que vivem no Brasil, mas ao invés de apropriação, dessa vez rolou integração.  A marca contratou como modelos refugiados de países como Congo, Palestina, Senegal e Síria, que moram em São Paulo. Afinal, quem poderia contar essa história melhor do que eles? Além disso, o desfile teve essa aura de denúncia aos diversos conflitos que ocorrem atualmente, como são os caso da Síria e da Palestina, uma vez que o tema dos refugiados pressupõe os conflitos por si só.

Voltando a questão da finalidade dos desfiles, vamos analisar um pouco qual o seu sentido hoje em dia.  Sabe-se que os desfiles nasceram por causa dos tecidos, e das marcas de tecido que, para promover seus produtos, faziam estas apresentações com modelos vestindo-os em forma de roupas. À época, os desfiles eram extremamente focados na promoção do produto, permitindo até que os clientes encostassem nas peças usadas pelas modelos. Além disso, vale ressaltar que quem assistia aos desfiles eram os clientes. Rapidamente, as confecções de roupa adotaram o método para promover, não mais o tecido, mas a roupa propriamente dita, isto é, o produto final já pré-concebido e idealizado por um estilista. Assim, muitas pessoas que antes eram suas próprias estilistas e diziam aos costureiros como queriam suas vestimentas, passaram a ser apenas consumidores. E a partir de então, com os modelos de produção acelerando cada vez mais a confecção e a indústria cultural cada vez mais desagregando valor e agregando status às marcas, os desfiles tornaram-se o que são hoje: um espetáculo exclusivo e desvinculado do consumidor, que instaura desejo e apela para abstrações de toda natureza.  Já as modelos, que antes serviam apenas como cabides para dar movimento e visibilidade às roupas, hoje em dia servem para inspirar, provocar desejo pela peça, promover a marca, agregar status. Por essa razão, está cada vez mais comum a contratação de modelos-celebridades em desfiles de grandes marcas. Kendall Jenner talvez seja a mais representativa: a garota é fruto de um grande espetáculo, sua vida foi iluminada por holofotes em cada segundo, sua família era compostas de pessoas "famosas por serem famosas" (próximo post vai ter mais Kardashians!). Ela não era a escolha óbvia para um desfile como o da Victoria Secret's, famoso por suas modelos bombshells com corpos extremamente trabalhados, com grande carisma e sex appeal. Mas não tenha dúvida que a presença dela ali foi cuidadosamente pensada para atrair mais visualizações para o desfile, seja por aqueles que a amam ou por aqueles que amam odiá-la (esse é o efeito Kardashian...).

Mas o que seria da coleção sem o desfile e sem as (e os) modelos? Voltando a essa edição do SPFW, tivemos a tão esperada coleção da Osklen, sem nenhum desfile. A ideia de Oskar Metsavaht provavelmente foi remeter aos desfiles tradicionais, que eram feitos para o consumidor entrar em contato com o produto. Afinal, uma marca que se importa tanto com a qualidade e peculiaridade de seus tecidos, como é o caso do linho e do neoprene, não poderia aceitar que eles passassem despercebidos. E o melhor de tudo é que, apesar de a "exposição sensorial" da Osklen ter sido fechada para os convidados apenas, ela não passa de uma inauguração de uma coleção à qual todos nós teremos acesso, talvez não para comprar as peças (que continuam caras, mas que ao contrário da Riachuelo eu até defendo pela qualidade dos tecidos, que já são mais caros por si só), mas para ver, encostar, experimentar e depois não comprar nada, que é o esporte mais legal.

O texto dessa semana ficou superficial e curto, mas é culpa da Faculdade e do SPFW que me deu muito pra falar esses dias. Enfim, vejam a coleção de Ronaldo Fraga e os depoimentos dos refugiados e por favor, não comprem nada da coleção Lagerfeld+Riachuelo (só em Junho, que é quando as pontas de estoque farão com que tudo quase custe o preço que vale). Mas ainda acho que foi feio... Beijos de NICO.

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quarta-feira, 20 de abril de 2016

Inspiração, Iggy Azalea e Indústria Cultural

No processo criativo, aquilo que qualificamos como inspiração nunca é resultado de um raciocínio lógico, mas sim exercício do inconsciente do autor. E nesse inconsciente, não se sabe exatamente como o processo de inspiração ocorre, mas acredita-se que ele é influenciado pelas mais diversas informações do mundo externo, desde as cognoscíveis e mais acentuadas como uma conversa com outra pessoa até aquelas que passam despercebidas pelo nosso consciente, como propagandas. Para Leonard Mlodinow, por exemplo, físico autor de "Subliminar", um livro que discute como e quanto o inconsciente influencia em nossas vidas, a maior parte de nosso pensamento e da forma como vivenciamos o mundo é objeto do inconsciente. Mas o que isso significa para os criadores?
Vamos supor que o estilista Jean Croissant esteja parado no trânsito. À sua frente ele vê uma placa de carro. Acontece que essa placa dá um estalo mente do estilista, como um gatilho, e o faz ter a ideia de fazer toda uma coleção baseada nas roupas dos corredores de Fórmula 1. Entre o estalo e a ideia, aconteceram infinitas coisas no inconsciente do sr. Croissant, que nem a neurociência pode explicar ainda. Talvez tenha lembrado de sua infância vendo Speed Racer, talvez não tenha nada a ver com a sua própria vida, talvez sejam somente estímulos externos. Sabemos que não foi um puro raciciocínio lógico que levou Jean da placa à coleção. Creio até que poderia ter acontecido com qualquer um, em qualquer lugar, e Jean no trânsito é só uma das infinitas possibilidades de se chegar nessa inspiração. Se praticamente todos os estilistas do mundo passam por placas de carro todos os dias, por que algum deles teria algum direito sobre essa inspiração?

                O que acontece quando o inconsciente atua eu jamais saberei explicar, mas o fato é: em última análise é ele quem encontra as inspirações. E afinal, qual é a treta? Ter ideia todo mundo tem, ou seja, pessoas diferentes podem ter ideias muito parecidas. A proteção jurídica da propriedade intelectual não é nada mais do que a defesa do velho "eu cheguei aqui primeiro". Isso é bacana pois permite que as pessoas desenvolvam seus projetos em paz. Por exemplo, se da minha cabecinha eu tiro uma projeto genial e registro, isso impede que uma empresa grandona, cheia de dinheiro, tecnologia e recursos simplesmente pegue a minha ideia, produza muito mais rápido do que eu produziria na minha casa, e lucre absurdos com algo que se não fosse por mim não existiria (naquele momento).
                Aliás, isso remete ao famigerados suéteres do desfile Métiers d'art da Chanel que ocoreu em dezembro do ano passado. Pra quem não acompanhou, a Chanel apresentou em seu desfile uma série de suéteres masculinos de tricot Fair Isle, que é uma técnica de tricotar típica da região de Fair Isle, na Escócia. Acontece que uma designer desse tipo de tricot chamada Mati Ventrillon soltou no Facebook um relato que afirmava que funcionários da Chanel teriam visitado sua loja em Fair Isle e comprado algumas de suas peças para "pesquisa". Pelo jeito o resultado da pesquisa foram peças extremamente semelhantes sendo desfiladas nas passarelas da Chanel.  Felizmente, a grife francesa teve a decência de pedir desculpas e comprometer-se a citar a desginer nas fotos contendo os suéteres. Ainda assim, temos aí um caso em que a ideia de inspiração ultrapassou os limites do bom senso e do direito.

                Falando em falta de bom senso, não podemos deixar passar despercebido o desfile Verão 2016 com a temática "África", da Valentino. Já começaram mal pela escolha do tema: como poderiam resumir a realidade de um continente inteiro, que internamente possui tantas diferenças sociais, climáticas e culturais?  A Valentino decidiu por resumir esse continente com palavras como "primitivo" e "tribal", que foram usadas para descrever a temática na conta do Instagram da grife. Resumindo, os primeiros grandes problemas do tema foram o preconceito envolvido nas descrições e a grande banalização das culturas individuais de cada região.

                Fora isso, o desfile ainda levantou questões sobre a apropriação cultural na moda. Mas afinal, o que é apropriação cultural? Bom, de acordo com a Wikipédia (sim, por que não?), "apropriação cultural é a adoção de alguns elementos específicos de uma cultura por um grupo cultural diferente. Ela descreve aculturação ou assimilação, mas pode implicar uma visão negativa em relação a aculturação de uma cultura minoritária por uma cultura dominante." Como eu vejo esse fenômeno? Na minha opinião, quando falamos em um mundo globalizado e capitalista, não podemos colocar a "culpa" originárias da apropriação inteiramente no indivíduo, nesse caso o "artista" (e como artistas podemos entender cantores, designers, pintores, etc.). A princípio, devemos olhar para o produto e para o consumidor. Vamos tomar como exemplo a música enquanto produto. Quando pensamos, de forma geral, no rap norte-americano, que é extremamente popular no mundo todo, não conseguimos definir cultural ou etnicamente a qual grupo pertence o consumidor, pois os amantes de Kanye West ou de Eminem são brancos, negros, pardos, amarelos, e por aí vai... Agora, por alguma razão, Iggy Azalea entrou no cenário do rap gerando a polêmica de que ela, branca, estaria apropriando culturalmente um estilo musical ligado ao histórico de luta e sofrimento da cultura negra norte-americana. Mas a minha indagação é a seguinte: será que foi Azalea que se apropriou da cultura negra norte-americana, ou será que foi a lógica de mercado, que simplesmente incorporou esse estilo musical tipicamente contracultural e o transformou em um produto comercial semelhante ao pop? Não estou renegando a história do rap, nem a inegável luta dos negros por direitos em um país historicamente e constantemente racista. Quase tudo que é produzido hoje é em meio a chamada Indústria Cultural, termo cunhado pelos filósofos Max Horkheimer e Theodor Adorno, para descrever a situação  da produção artística na lógica da produção industrial. Por essa razão, a música, a arte, e mesmo a moda, quando são consumidas, estão completamente desvinculada de ideais e de significados. Isso não significa que a Indústria Cultural não desrespeite as culturas; ela desrespeita sim, e provavelmente, todas. A questão é se é estratégico culpabilizar os indivíduos por um fenômeno que pertence à estrutura capitalista na qual estamos todos inseridos, independentemente da nossa vontade. Em outras palavras, pode ser e é, em muitos casos, uma grande falha de caráter por parte dos indivíduos, mas isso não exclui o fato de que a apropriação cultural é uma manifestação típica do sistema capitalista.
                Ainda falando da apropriação de culturas, há quem defenda alguns dos casos de inspiração versus apropriação, ao afirmar que trata-se, na verdade, de uma homenagem à cultura. Se a Valentino usasse esse discurso não teria muito fundamento, afinal, você deve conhecer e respeitar aquilo que homenageia. Mas em alguns casos, a ética e o profissionalismo tornam essa apropriação, de certa forma, e com inúmeras ressalvas, quase defensável. É o caso de Oskar Metsavaht, diretor criativo da Osklen. O estilista não apenas se inspirou na cultura dos índios Asháninka, comunidade que vive na floresta amazônica, mas também desenvolveu junto a eles um projeto social, pois o dinheiro pago pela utilização de tecidos e tatuagens tradicionais da tribo foi redirecionado pelos índios para a realização de melhorias na comunidade, como a construção de uma escola. Essas informações, assim como uma entrevista com Oskar estão contidas num artigo da Huffpost Brasil, cujo link está disponibilizado logo no fim desse texto.


                Enfim, minhas opiniões sobre apropriação cultural são apenas as minhas opiniões. Adoraria ouvir outras, afinal, creio que o tema ainda não é muito explorado no meio da indústria da moda, ou pelo menos, não tanto quanto deveria. A moda, enquanto existir, terá muito o que aprender sobre ética e respeito às culturas. Mas por ora, tomemos pessoas como Oskar Metsavaht como exemplo. Beijos de NICO.

Entrevista com Oskar Metsavaht:

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quinta-feira, 14 de abril de 2016

Falso, Freud e Fendi

                Quem ainda acha que falsificações são "toscas" ou mal feitas deve ter parado de perceber que está rodeado por elas. As falsificações hoje estão tão reais que muitos produtos, e são muitos mesmo, perdem seu valor por remeterem às falsificações. Eu mesma, se tivesse dinheiro pra isso, é claro, não o gastaria com um mocassim da Louis Vuitton (daqueles com o LV dourado bem evidente). E a imagem deve passado pela cabeça de alguns, porque não se trata de uma peça necessariamente icônica, mas de uma peça extremamente popular, ou seja, qualquer um que ande de metrô, já viu o dito cujo no pé de alguém.

                 Mas, voltando às boas falsificações, eu sugiro que os céticos dêem uma boa olhada em uma bolsa 2.55 na Chanel e depois dêem um passeio pelas galerias da Liberdade, no centro de São Paulo, e me apontem as diferenças. Talvez um especialista em couros, talvez outro em metais, mas eu garanto, não será você que dirá qual é qual. O forro é impecável, as costuras perfeitas, e pasmem, os chineses até falsificam o certificado de autenticidade! Para o consumidor comum, a única diferença que pode ser apontada é o fato de você mesmo saber onde comprou a sua 2.55. Nada mais. Agora, eu não estou tentando incetivar o consumo de produtos falsos, muito pelo  contrário, pretendo citar incansáveis exemplos do porquê essa compra é uma cilada.

                O primeiro desses motivos é: você não vai ficar satisfeito, nem por um segundo, por ter comprado um produto falso. Se não acredita, faça o seguinte experimento: pegue água do filtro, coloque em uma garrafa Perrier, beba. Não deixa de ser água, não deixa de matar a sede, mas no seu coraçãozinho trapaceiro, você sabe que não é a mesma coisa. Não estou dizendo que água Perrier é melhor que do filtro, sinceramente, o gosto pra mim é a mesma coisa. Mas a sensação não é igual. O que eu quero dizer com isso? Adquirir uma bolsa 2.55 da Chanel não é um simples consumo, é um processo de satisfação de um desejo. E satisfazer um desejo não envolve apenas a aquisição do objeto do desejo, mas também um bando de sensações e requisitos abstratos que incluem o processo de aquisição do objeto. Simplificando, se você não acreditar veementemente que aquela bolsa passou pelas mãos de funcionários da indústria da Chanel na França, ela jamais será a sua tão sonhada 2.55.

                Todos nós estamos sujeitos a essa vontade de sublimar os desejos de consumo com produtos falsos. Mas é aquela história né? A gente até pode enganar os outros, mas não consegue mentir pra si mesmo... Eu passei por isso recentemente, e eu culpo Karl Lagerfeld por isso. Desde que surgiram, aquelas Peekaboo bags da Fendi com os olhos de monstrinhos na parte interna têm sido o meu sonho de consumo. Não vou nem falar dos chaveiros peludinhos... Enfim, eu sou uma estudante em São Paulo, ou seja, não tenho 15 mil reais pra gastar, quem dirá numa bolsa. Então, andando por uma daquelas galerias de produtos chineses na Av. Paulista, deparei-me com um quiosque que vendia bolsas de grife, ao que tudo indica, falsas. Ao ver a bolsa zóiudinha ali, não resisti, tive que dar uma olhada. Como eu disse, forro impecável, acabamento perfeito. Talvez eu até fosse contra os meus princípios e cedesse à tentação se eu não tivesse levado um susto com o preço. Eu não tenho 1.200 reais pra gastar numa bolsa, quem dirá numa bolsa falsa. E aí bate aquela tristeza, não só em mim mas em todos que passam por isso todos os dias, constatando o que o filósofo Gilles Lipovetsky chama de "sociedade da decepção". O fato é que nunca estamos consumindo tanto quanto gostaríamos, nunca temos o dinheiro necessário pra ter tudo aquilo que desejamos.
                Falamos muito do consumidor, vamos falar agora do outro lado:  a empresa. Faça um outro exercício agora: entre no site da marca Christian Louboutin, não se distraia com as coleções, clique em "contact us", depois em "other inquires", e por último, clique em "Stopfake". Você será redirecionado para a página menos glamurosa do site. Essa parte trata apenas de várias e várias ações da marca Louboutin contra os falsificadores por todo o mundo. Além disso, há ainda as ações contra as marcas que violam a "red sole trademark", isto é, marcas que utilizam em seus sapatos solas vermelhas (que foram registradas por Louboutin). A questão do registro sobre a sola vermelha e o auê que isso causou no mundo da moda e do direito fica pra outro dia. O que eu queria mostrar com esse exercício é que grifes de renome passam por um esforço que percorre o globo para encontrar as falsificações de seus produtos e tirá-las de circulação. Até podemos pensar que existe algo de lisonjeiro em ter tantas cópias de seus produtos espalhadas pelo mundo. No entanto, essas cópias, há quem diga, não causam nada além de danos. Não há concorrente mais desleal do que aquele que vende a sua ideia por um preço infinitamente menor (não tão infinitamente no caso da Peekaboo). Afinal, quem despertou o desejo no consumidor? Fez um desfile monumental para valorizar os produtos expostos? Contratou uma Kendall Jenner ou uma Gigi Hadid para portar as peças? Tudo isso pra quê? Para que o consumidor decida pelo produto falsificado? Sim, eu entendo, nessa hora o bolso fala mais alto. Meu conselho? Inspirações e brechós. Cada um dos dois merece um post em separado, então o papo fica pra outro dia. Mas espero que essa longa conversa tenha tenha causado algum efeito em alguém! Beijos de NICO.

PS: Pra quem quiser aprofundamento nesses temas de sociologia da moda fica Gilles Lipovetsky como dica.