sexta-feira, 20 de maio de 2016

Modelos, Marketing e Magreza excessiva

Vamos falar um pouco sobre os padrões da moda?
Até então esse tem sido o século da aneroxia, da bulimia, da depressão,  e do "quer perder 10kg em um mês?". Mas o que esses padrões de fato representam para a moda? Quem ganha com isso? Por que uma garota beirando a inanição pode vender uma peça melhor do que uma garota de padrões médios?

Vamos começar falando do produto. Quando estilistas e publicitários escolhem garotas magras e altas (e geralmente brancas) para suas campanhas, eles estão na verdade pensando na melhor forma possível de vender seu produto. Isso incluí não apenas o rosto e o corpo que irão moldar o produto, mas também um ideal de beleza, de vida, de sucesso. Assim, o objeto (seja uma roupa, um sabonete ou um imóvel) irá incorporar esse ideal na mente do consumidor. No caso da moda, o negócio é vender a roupa em movimento, por meio dos desfiles. Os clientes querem ver como a roupa fica no corpo, se ela marca, se ela é curta demais, comprida demais... Mas, sinceramente, o comprimento e o caimento de uma roupa na Gisele Bundchen está longe de ser o mesmo do que na mulher média brasileira, que tem entre 1,58 e 1,64 e usa manequim entre 42 e 44. Se é pra mostrar uma visão de medidas que não condiz com a realidade por que então não expor as roupas em cabides? Foi o que a Osklen fez na SPFW desse ano: roupas em cabides, contato com os tecidos, sem modelos.

Fora a questão dos padrões serem irreais, ainda precisamos discutir se esses padrões ainda condizem com o que as pessoas julgam ser "mais bonito". Hoje em dia, o convencionado como mais bonito é o corpo "saudável", entre aspas porque esse corpo é muitas vezes atingido por meio de intervenções cirúrgicas, e que pode ser representado pelo shape Kim Kardashian. Então, se o padrão de beleza é representado por Kim Kardashian, por quê as  marcas ainda querem desfilar suas roupas com Kendall Jenner? De todo jeito são dois tipos diferentes de corpos quase inatingíveis: um muito magro e alto, outro  perfeitamente curvilíneo.

Com relação à saúde, vale falar da lei aprovada na França em abril de 2015, que proíbe que modelos com IMC (índice de massa corporal) menor do que 18 trabalhem em campanhas ou desfiles. O objetivo da lei era impedir o incentivo à anorexia, doença que afeta muitas jovens entre 14 e 19 anos, principalmente por tentarem se encaixar no padrão magérrimo de beleza européia. Com a lei, modelos abaixo do peso saudável não poderiam trabalhar em funções (desfiles e campanhas) que as expusessem como um modelo a ser seguido. Dessa forma, jovens por todo o país (e pelo mundo) não seriam incentivadas a correr atrás de um padrão doentio, que nada mais faz do que fazer crescer nas estatísticas o números de casos de anorexia, bulimia e depressão.
Felizmente, estamos vivendo uma era de aceitação à diversidade, com várias marcas tentando promover-se com o slogan de que todo corpo é belo, de que toda mulher é maravilhosa, de que ser feliz é sentir-se bem consigo mesmo. Mesmo com esses esforços amigáveis, o inegável é que os padrões ainda existem e estão à solta, causando mais mal do que bem.


Alguns esclarecimentos:  Magreza não é sinônimo de anorexia. Doentio não é ser magro, doentio é enfiar na cabeças das pessoas que elas precisam ser. Pessoas magras também sofrem preconceito, e muito, portanto, não diminuam o sofrimento delas, OK? Beijos de NICO.

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quinta-feira, 12 de maio de 2016

Bom, Básico e Barato

Para onde foi a camiseta branca de 30 reais?
Hoje em dia, com o aumento exorbitante das opções de compra, assim como da velocidade de surgimento de tendências, cada vez tem sido mais difícil encontrar aquela camiseta branca simples, lisa, acessível e de qualidade (tecidos confortáveis e um bom acabamento). E, como causa e consequência dessa dificuldade, temos presenciado dois processos distintos, mas correlatos: o esquecimento das roupas "boas e baratas", e a "gourmetização" da indústria varejista.

Comecemos pelo básico, ou melhor, pelas básicas. Outro dia li uma matéria da Exame que descrevia o processo de decadência da marca Hering, que sempre foi conhecida por seu estilo básico, liso, e com tecidos de qualidade. A matéria está disponível aqui para quem quiser se aprofundar, mas, resumidamente, o que aconteceu foi que o grande sucesso da Hering fez com que ela decidisse abrir várias lojas e se arricasse no jogo das tendências. O resultado disso foi: a marca não conseguia supervisionar todas as suas unidades, e também acabou perdendo sua essência na corrida para alcançar as tendências.  Na minha opinião, a Hering tinha uma receita infalível e atemporal para o sucesso: focar o produto no consumidor que precisa andar vestido, não quer pagar caro, e não aceita ficar desconfortável com um tecido que esquenta ou que pinica. Mas, pra quê se contentar com a excelência quando você pode arriscar competir num jogo de mercado das grandes varejistas como Renner, C&A, Riachuelo?  Mas sei lá, a Hering ainda pode renascer das cinzas e retomar o foco para o "bom, básico e barato", ou então, espero eu, alguma marca nova cumprirá esse papel.

Mas qual o problema da Hering querer competir com as grandes redes de varejo? O problema é que essas redes investiram em um modelo de vendas que, por mais que agrade uma amostra muito grande de consumidores, segue um modelo oposto de lucratividade, isto é, a venda em massa de produtos de qualidade menor, com tecidos, de regra, mais baratos, nas mais diversas estampas e cores, e com preços que variam, do assustadoramente baixo ao absurdamente alto.  Em uma matéria de Fevereiro da Istoé Dinheiro, foram apresentados dados de aumento do preço médio de varejistas gringas como Topshop e H&M, que foram de 50% e 83%, respectivamente, em um período de três anos. Isso significa que os preços nessas lojas populares estão subindo, e subindo muito. O equivalente se traduz também no Brasil em redes como a C&A e a Riachuelo.

Além disso, ao falar de goumertização do varejo, não se pode ignorar o fenômeno das parcerias "fast fashion + grifes" que tornou-se recorrente nos últimos tempos. Que tal Riachuelo+Versace? Ou Riachuelo+Lagerfeld?  O problema é que existe uma certa ilusão do consumidor de estar consumindo de fato um produto de grife, quando na verdade os preços ficam mais pra Versace e a qualidade mais pra Riachuelo. Afinal de contas, o preço pago em uma peça da Riachuelo assinada por Donatella Versace pode ser o mesmo, ou até maior, que o de uma peça Versace original comprada em um brechó. O problema é que no Brasil brechó ainda é tabu...  


Então, como conclusão, percebe-se que estamos rodeados de opções de compra e ao mesmo tempo com as mão atadas, uma vez que os básicos ficaram complicados demais e as peças do varejo custam muito mais do que o preço que valem. E nessa onde de fast fashion é tudo tão automático que a gente acaba não parando pra pensar nas pessoas que fabricam as roupas, em quanto do preço é na verdade imposto, em quanto o tecido realmente vale, entre outras questões. Em tempos de crise, não custa nada lembrar do consumo consciente. Beijos de NICO.

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sexta-feira, 6 de maio de 2016

Cuba, Chanel e Che

Vamos falar de Chanel em Cuba?
O desfile foi histórico, as roupas estavam lindas,  sem falar no impacto na mídia que o evento causou, com Gisele, Vin Diesel, e todas as demais celebridades que aterrissaram na capital cubana só para poder acompanhar de perto a coleção cruise da grife francesa.
Mas esse também foi o dia em que a Chanel banalizou a história de Cuba, ou homenageou a gradual abertura do país ao capitalismo, ou simplesmente usou Havana como salão de festas e debandou logo em seguida, assim como todos os convidados do desfile. Nesse aspecto, o que restou para Cuba? 5 minutos de fama e os rastros das peças da Chanel que passaram por lá, já que as roupas não tem porquê ficar por lá, afinal, ninguém compra Chanel em Cuba.

Falando em absurdo, o que foi aquilo Gisele? Você já é bastante coisa, precisa ser Che Guevara também? Tudo bem que meio mundo anda por aí com a cara do indivíduo estampada no peito, mas a meu ver, é num tom de homenagem ou então pelo menos de "olhem pra mim, eu sou comunista", não sei, cada um usa a camiseta que quiser com a cara de quem quiser e não tem que ser problema pra ninguém isso. Agora ir até Havana de roupa vermelha e boina preta, rica e glamurosa, pra ver o desfile da Chanel no Paseo del Prado foi uma ostentação, uma provocação, uma crítica interessantíssima, ou uma brincadeira de mau gosto.

Então acho que isso significa que estamos vivenciando a abertura de Cuba para um novo mundo, certo? Um mundo de Chanel e Rolling Stones, passando pela consagrada visita do presidente dos Estados Unidos. Essa semana Cuba foi a virgem de  57 anos que, em pleno 2016, resolveu ceder ao pecados capitais, ou melhor, do capital.
 O paradoxo interessante é que para presenciar isso que chamamos de "abertura", Cuba vivenciou na última terça feira (03/05) alguns "fechamentos". A rua, que sempre foi pública, encontrava-se fechada apenas para os convidados e a organização do desfile, assim como a galeria Factoria Habana, onde acontece a exposição fotográfica de Lagerfeld, e que, nas palavras de Pablo de Llano para artigo no El País, é "de propriedade estatal mas nesta tarde com entrada controlada por lista". Cuba quis viver a abertura, agora há de viver a exclusão: o desfile foi feito em Cuba, inspirado em Cuba, com charutos cubanos, salsa, Gisele BundCHEn, mas de cubanos mesmo não teve muito, fora , é claro, a presença do modelo Tony Castro, neto de Fidel, que, dizem por aí, achou o desfile ótimo.

Imagina como os franceses se sentiriam se um designer cubano fechasse a Champs-Elysées para um desfile inspirado na França, cheio de boinas da Revolução Francesa, croissants, moustaches, blusas listradas de gola rolê... Sei lá, só jogando no ar... Daria um bom plot-twist. Beijos de NICO.

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PS: Minha mãe andou reclamando que os textos eram longos demais. Toma essa: menos de 500 palavras. E feliz dia das mães.