Vamos falar de Chanel em Cuba?
O desfile foi histórico, as
roupas estavam lindas, sem falar no
impacto na mídia que o evento causou, com Gisele, Vin Diesel, e todas as demais
celebridades que aterrissaram na capital cubana só para poder acompanhar de
perto a coleção cruise da grife francesa.
Mas esse também foi o dia em que
a Chanel banalizou a história de Cuba, ou homenageou a gradual abertura do país
ao capitalismo, ou simplesmente usou Havana como salão de festas e debandou
logo em seguida, assim como todos os convidados do desfile. Nesse aspecto, o
que restou para Cuba? 5 minutos de fama e os rastros das peças da Chanel que
passaram por lá, já que as roupas não tem porquê ficar por lá, afinal, ninguém
compra Chanel em Cuba.
Falando em absurdo, o que foi
aquilo Gisele? Você já é bastante coisa, precisa ser Che Guevara também? Tudo
bem que meio mundo anda por aí com a cara do indivíduo estampada no peito, mas a meu ver, é num tom de homenagem ou então pelo menos de "olhem pra mim, eu
sou comunista", não sei, cada um usa a camiseta que quiser com a cara de
quem quiser e não tem que ser problema pra ninguém isso. Agora ir até Havana de
roupa vermelha e boina preta, rica e glamurosa, pra ver o desfile da Chanel no
Paseo del Prado foi uma ostentação, uma provocação, uma crítica interessantíssima,
ou uma brincadeira de mau gosto.
Então acho que isso significa que
estamos vivenciando a abertura de Cuba para um novo mundo, certo? Um mundo de
Chanel e Rolling Stones, passando pela consagrada visita do presidente dos
Estados Unidos. Essa semana Cuba foi a virgem de 57 anos que, em pleno 2016, resolveu ceder ao
pecados capitais, ou melhor, do capital.
O paradoxo interessante é que para presenciar isso
que chamamos de "abertura", Cuba vivenciou na última terça feira
(03/05) alguns "fechamentos". A rua, que sempre foi pública,
encontrava-se fechada apenas para os convidados e a organização do desfile,
assim como a galeria Factoria Habana, onde acontece a exposição fotográfica de
Lagerfeld, e que, nas palavras de Pablo de Llano para artigo no El País, é "de propriedade estatal mas nesta tarde com entrada controlada
por lista". Cuba quis viver a abertura, agora há de viver a
exclusão: o desfile foi feito em Cuba, inspirado em Cuba, com charutos cubanos,
salsa, Gisele BundCHEn, mas de cubanos mesmo não teve muito, fora , é claro, a
presença do modelo Tony Castro, neto de Fidel, que, dizem por aí, achou o
desfile ótimo.
Imagina como os franceses se sentiriam se um designer
cubano fechasse a Champs-Elysées para um desfile inspirado na França, cheio de
boinas da Revolução Francesa, croissants, moustaches, blusas listradas de gola
rolê... Sei lá, só jogando no ar... Daria um bom plot-twist. Beijos de NICO.
PS: Minha mãe andou reclamando que os textos eram longos
demais. Toma essa: menos de 500 palavras. E feliz dia das mães.



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