quinta-feira, 14 de julho de 2016

Existem limites para o uso artístico de marcas?

Recentemente, têm chamado minha atenção inúmeras obras de arte, de diferentes artistas, que tem como crítica a sociedade de consumo, com um enfoque para o consumo de luxo e o culto às logomarcas. Desde bagels e baguetes transformados em bolsas Chanel, passando por vasos sanitários com o selo Prada, até lojas físicas de grifes de luxo, inativas, construídas no meio do nada. São três casos, de três artistas que lidaram diferentemente com o uso dessas marcas registradas, desses "logos". Trataremos primeiro do caso que mais chamou minha atenção, que aqui entitularemos "Prada Marfa".

Quem é fã do seriado "Gossip Girl"ou, principalmente, quem gosta do choque entre moda e arte precisa conhecer essa história. Dois artistas europeus, Michael Elmgreen e Ingrid Dragset, escolheram representar nossa sociedade com uma obra de arte peculiar e inovadora: uma loja física da grife italiana Prada, residindo no vazio, no "meio do nada", mais especificamente, em uma beira de estrada próxima à cidade de Marfa, no Texas, que atinge cerca de dois mil habitantes. A ideia inicial da dupla era deixar a loja-obra abandonada nessa rodovia, para que a própria natureza e o tempo a degradassem. Para aqueles de passagem, Prada Marfa deixaria o desconforto e a confusão do porquê aquele símbolo de luxo e ostentação estaria ali erguido no meio do nada, completamente esquecido. Próximo ao local foram colocadas placas, que são iguais àquela que vemos na luxuosa cobertura do Upper East Side no seriado Gossip Girl. Fato é que os artistas acabaram retocando a obra devido a sua depredação pela ação humana como tiros nas vitrines, e pela violação da obra por outros artistas também.

Mas o que isso tem a ver com o tema das marcas? Bom, antes de montarem a instalação, os artistas pediram permissão à grife italiana, que encarou a obra com simpatia, sendo que Miuccia Prada até escolheu as peças que ficariam dentro da instalação. A arte foi instalada em 2005, entretanto, só em 2013 o Departamento de Transportes do Texas, em um equívoco administrativo, decidiu classificar a peça como propaganda ilegal. Sabendo disso, Michael Elmgreen defendeu-se em uma entrevista dizendo que nunca foi comissionado pela Prada, e que só teria pedido permissão para evitar uma ação judicial, não havendo assim, qualquer relação comercial entre os artistas e a marca. Ainda nessa mesma defesa, Elmgreen continuou "os artistas contemporâneos mais famosos hoje em dia têm usado, em algum ponto de suas carreiras, uma marca, jogando-a contra diferentes contextos, mostrando-a de um jeito novo e diferente - às vezes um posicionamento contra o consumismo". Essa declaração me fez pensar no papel transgressor da arte, de nos fazer pensar, de incomodar, de ser instigante, polêmica. Se a arte de Elmgreen e Dragset tiver esse propósito, e eu acredito que tenha, por que então pedir permissão? A arte está sujeita a crimes contra marcas? Ou estaria protegida por liberdade de expressão?

No momento em que as marcas fixam-se na sociedade elas passam a ter outros significados, e não apenas a indicação de procedência de um produto. Por exemplo, existe uma diferenciação social instantânea entre a pessoa carregando a marca Prada em uma bolsa e as outras que não carregam, pois o símbolo remete a luxo, riqueza, preocupação estética, ou até mesmo a sucesso profissional, em alguns casos. O que significaria então uma escultura de um vaso sanitário com a marca Prada, como fez o artista plástico Tom Sachs? Eu consigo imaginar uma crítica ao luxo, ironizando a necessidade de auto-afirmação pela exaltação das marcas até nos objetos mais pífios, como uma privada. Sabemos pela experiência de Marfa que a Prada simpatiza com a arte, e não se interpõe a esse tipo de crítica, mas e se não fosse o caso? Poderia uma marca alegar que esse tipo de arte estaria denegrindo sua imagem, censurando a expressão artística?

E o que dizer das Bagel Bags da artista canadense Chloe Wise? A confusão começou efetivamente quando a atriz India Menuez exibiu uma bolsa aparentemente da marca Chanel, que possuía o formato e aparência de um bagel. O que causou a confusão foi o uso da marca registrada dos dois C's cruzados. Sabe-se que a Chanel preocupa-se muito com os usos indevidos de sua marca registrada, e talvez não simpatize tanto com as  artes críticas como fez a Prada. Com o histórico de bolsas inusitadas da marca francesa, a confusão causada no meio da moda foi totalmente compreensível, e como a artista pretendia vender a peça em sua exposição numa galeria, o produto teria finalidade comercial. Estariam então preenchidos os requisitos para uma possível ação judicial por diluição de marca. Por outro lado, Wise poderia justificar seu trabalho com a alegação de paródia, explicando a crítica envolvida e defendendo-se enquanto artista. Mas tudo isso são apenas hipóteses, que geram perguntas, que geram mais perguntas. Acho que a grande questão na verdade é: esse uso artístico das marcas é de fato permitido ou negligenciado?

Beijos de NICO.

LINKS: