Em tempos da semana de moda de
São Paulo, o SPFW, me peguei com a seguinte dúvida: pra que serve tudo isso?
Desfiles, modelos , o front row, a
imprensa? Se os desfiles são feitos pra apresentar os produtos por que então o
consumidor final fica alheio à eles? Ou então qual a função das modelos? Ser um
cabide para as roupas desfiladas ou tornar as roupas um objeto de desejo
para quem vê? Tudo isso parece parte de um mundinho glamuroso vivido por
estilistas, modelos, imprensa e celebridades,
que por meio de uma inacessibilidade para com as massas ,
esquecem-se de seu consumidor final.
Talvez por isso muitas marcas de "renome"no Brasil acabem falindo,
não é mesmo? Valem-se da opinião crítica
das grandes revistas de moda (que nada mais fazem do que puxar o saco de todo
mundo), e ficam tão presas a esse universo de fantasia e feedbacks positivos que
ignoram o fato de que aplausos não geram lucro. Vamos lembrar por um instante
da falecida Neon? A marca de Dudu Bertholini e de Rita Comparato teve 10 anos
de sucesso e de desfiles destruidores, mas teve que fechar as portas pois não
tinham o tato para lidar com os negócios (encerrando seus trabalhos com uma
dívida de 2 milhões). À época, muitos culparam o governo pela falta de
incentivo à indústria da moda, o que não deixa de ser verdade, afinal, como
pode um país com tanto incentivo ao consumo e com uma população que, segundo
Lipovetsky, tem "paixão pelo luxo", ainda não possuir uma lei
de incentivo a essa indústria? Entretanto, não se pode apontar o dedo somente para
o governo, afinal, todas as marcas viveram essa crise, mas nem todas afundaram,
pois muitas tiveram a capacidade de se reinventar, de perceber que, durante as
crises, o brasileiro quer o luxo à preço de banana.
Falando em luxo acessível, não há
nada mais (e menos) representativo atualmente do que a parceria Karl Lagerfeld
e Riachuelo. Na página do blog, comentei que a coleção da fast fashion tinha sido "apenas
ok", o que é um elogio muito grande, dadas as condições. A verdade é que
houve um esforço muito grande, diria monumental, para promover essa parceria,
com previews, aparecimento de uma das bolsas em uma novela da Globo, revistas e
sites de todos os tipos criando o maior bá-fá-fá, para que na terça -feira
(26/04), fosse apresentada o que pra mim foi uma reciclagem da ponta de estoque
da Riachuelo de 2012, na qual foram estampados milhares de rostinhos e nomes de
Karl Lagerfeld e de sua gata. A coleção não foi inspirada no talento do
estilista, em sua high-fashion, mas sim na própria pessoa do estilista, tal
qual, se foi pensado por Lagerfeld, foi um egocentrismo vulgar , se foi pensado
pela Riachuelo, foi a perda de uma grande oportunidade. E não vou nem falar da
qualidade dos tecidos... Se a ideia da parceria era implementar o luxo
acessível, eu diria que eles pecaram duas vezes: uma na coleção, na qual faltou
o "luxo", outra nos preços, nos quais faltou o "acessível".
(E sobre a notícia da Vogue que diz que a parceria "emplacou gol" no
SPFW, só se foi um gol contra em um jogo da série D, ou o "gol de
honra" do Brasil no 7X1)
Ainda no clima de SPFW, falemos
de saldos positivos. O desfile de Ronaldo Fraga que aconteceu na segunda feira
(25/04), teve como tema os refugiados que vivem no Brasil, mas ao invés de
apropriação, dessa vez rolou integração.
A marca contratou como modelos refugiados de países como Congo,
Palestina, Senegal e Síria, que moram em São Paulo. Afinal, quem poderia contar
essa história melhor do que eles? Além disso, o desfile teve essa aura de
denúncia aos diversos conflitos que ocorrem atualmente, como são os caso da
Síria e da Palestina, uma vez que o tema dos refugiados pressupõe os conflitos
por si só.
Voltando a questão da finalidade
dos desfiles, vamos analisar um pouco qual o seu sentido hoje em dia. Sabe-se que os desfiles nasceram por causa
dos tecidos, e das marcas de tecido que, para promover seus produtos, faziam
estas apresentações com modelos vestindo-os em forma de roupas. À época, os
desfiles eram extremamente focados na promoção do produto, permitindo até que
os clientes encostassem nas peças usadas pelas modelos. Além disso, vale
ressaltar que quem assistia aos desfiles eram os clientes. Rapidamente, as
confecções de roupa adotaram o método para promover, não mais o tecido, mas a
roupa propriamente dita, isto é, o produto final já pré-concebido e idealizado
por um estilista. Assim, muitas pessoas que antes eram suas próprias estilistas
e diziam aos costureiros como queriam suas vestimentas, passaram a ser apenas
consumidores. E a partir de então, com os modelos de produção acelerando cada
vez mais a confecção e a indústria cultural cada vez mais desagregando valor e
agregando status às marcas, os desfiles tornaram-se o que são hoje: um
espetáculo exclusivo e desvinculado do consumidor, que instaura desejo e apela
para abstrações de toda natureza. Já as
modelos, que antes serviam apenas como cabides para dar movimento e
visibilidade às roupas, hoje em dia servem para inspirar, provocar desejo pela
peça, promover a marca, agregar status. Por essa razão, está cada vez mais
comum a contratação de modelos-celebridades em desfiles de grandes marcas.
Kendall Jenner talvez seja a mais representativa: a garota é fruto de um grande
espetáculo, sua vida foi iluminada por holofotes em cada segundo, sua família
era compostas de pessoas "famosas por serem famosas" (próximo post
vai ter mais Kardashians!). Ela não era a escolha óbvia para um desfile como o
da Victoria Secret's, famoso por suas modelos bombshells com corpos
extremamente trabalhados, com grande carisma e sex appeal. Mas não tenha dúvida
que a presença dela ali foi cuidadosamente pensada para atrair mais
visualizações para o desfile, seja por aqueles que a amam ou por aqueles que
amam odiá-la (esse é o efeito Kardashian...).
Mas o que seria da coleção sem o
desfile e sem as (e os) modelos? Voltando a essa edição do SPFW, tivemos a tão
esperada coleção da Osklen, sem nenhum desfile. A ideia de Oskar Metsavaht
provavelmente foi remeter aos desfiles tradicionais, que eram feitos para o
consumidor entrar em contato com o produto. Afinal, uma marca que se importa
tanto com a qualidade e peculiaridade de seus tecidos, como é o caso do linho e
do neoprene, não poderia aceitar que eles passassem despercebidos. E o melhor
de tudo é que, apesar de a "exposição sensorial" da Osklen ter sido
fechada para os convidados apenas, ela não passa de uma inauguração de uma
coleção à qual todos nós teremos acesso, talvez não para comprar as peças (que
continuam caras, mas que ao contrário da Riachuelo eu até defendo pela
qualidade dos tecidos, que já são mais caros por si só), mas para ver, encostar,
experimentar e depois não comprar nada, que é o esporte mais legal.
O texto dessa semana ficou
superficial e curto, mas é culpa da Faculdade e do SPFW que me deu muito pra
falar esses dias. Enfim, vejam a coleção de Ronaldo Fraga e os depoimentos dos
refugiados e por favor, não comprem nada da coleção Lagerfeld+Riachuelo (só em
Junho, que é quando as pontas de estoque farão com que tudo quase custe o preço
que vale). Mas ainda acho que foi feio... Beijos de NICO.
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