quinta-feira, 28 de abril de 2016

Ronaldo Fraga, Refugiados e Riachuelo

Em tempos da semana de moda de São Paulo, o SPFW, me peguei com a seguinte dúvida: pra que serve tudo isso? Desfiles, modelos , o front row, a imprensa? Se os desfiles são feitos pra apresentar os produtos por que então o consumidor final fica alheio à eles? Ou então qual a função das modelos? Ser um cabide para as roupas desfiladas ou tornar as roupas um objeto de desejo para quem vê? Tudo isso parece parte de um mundinho glamuroso vivido por estilistas, modelos, imprensa e celebridades,  que por meio de uma inacessibilidade para com as massas , esquecem-se  de seu consumidor final. Talvez por isso muitas marcas de "renome"no Brasil acabem falindo, não é mesmo?  Valem-se da opinião crítica das grandes revistas de moda (que nada mais fazem do que puxar o saco de todo mundo), e ficam tão presas a esse universo de fantasia e feedbacks positivos que ignoram o fato de que aplausos não geram lucro. Vamos lembrar por um instante da falecida Neon? A marca de Dudu Bertholini e de Rita Comparato teve 10 anos de sucesso e de desfiles destruidores, mas teve que fechar as portas pois não tinham o tato para lidar com os negócios (encerrando seus trabalhos com uma dívida de 2 milhões). À época, muitos culparam o governo pela falta de incentivo à indústria da moda, o que não deixa de ser verdade, afinal, como pode um país com tanto incentivo ao consumo e com uma população que, segundo Lipovetsky, tem "paixão pelo luxo", ainda não possuir uma lei de incentivo a essa indústria? Entretanto, não se pode apontar o dedo somente para o governo, afinal, todas as marcas viveram essa crise, mas nem todas afundaram, pois muitas tiveram a capacidade de se reinventar, de perceber que, durante as crises, o brasileiro quer o luxo à preço de banana.

Falando em luxo acessível, não há nada mais (e menos) representativo atualmente do que a parceria Karl Lagerfeld e Riachuelo. Na página do blog, comentei que a coleção da fast fashion tinha sido "apenas ok", o que é um elogio muito grande, dadas as condições. A verdade é que houve um esforço muito grande, diria monumental, para promover essa parceria, com previews, aparecimento de uma das bolsas em uma novela da Globo, revistas e sites de todos os tipos criando o maior bá-fá-fá, para que na terça -feira (26/04), fosse apresentada o que pra mim foi uma reciclagem da ponta de estoque da Riachuelo de 2012, na qual foram estampados milhares de rostinhos e nomes de Karl Lagerfeld e de sua gata. A coleção não foi inspirada no talento do estilista, em sua high-fashion, mas sim na própria pessoa do estilista, tal qual, se foi pensado por Lagerfeld, foi um egocentrismo vulgar , se foi pensado pela Riachuelo, foi a perda de uma grande oportunidade. E não vou nem falar da qualidade dos tecidos... Se a ideia da parceria era implementar o luxo acessível, eu diria que eles pecaram duas vezes: uma na coleção, na qual faltou o "luxo", outra nos preços, nos quais faltou o "acessível". (E sobre a notícia da Vogue que diz que a parceria "emplacou gol" no SPFW, só se foi um gol contra em um jogo da série D, ou o "gol de honra" do Brasil no 7X1)

Ainda no clima de SPFW, falemos de saldos positivos. O desfile de Ronaldo Fraga que aconteceu na segunda feira (25/04), teve como tema os refugiados que vivem no Brasil, mas ao invés de apropriação, dessa vez rolou integração.  A marca contratou como modelos refugiados de países como Congo, Palestina, Senegal e Síria, que moram em São Paulo. Afinal, quem poderia contar essa história melhor do que eles? Além disso, o desfile teve essa aura de denúncia aos diversos conflitos que ocorrem atualmente, como são os caso da Síria e da Palestina, uma vez que o tema dos refugiados pressupõe os conflitos por si só.

Voltando a questão da finalidade dos desfiles, vamos analisar um pouco qual o seu sentido hoje em dia.  Sabe-se que os desfiles nasceram por causa dos tecidos, e das marcas de tecido que, para promover seus produtos, faziam estas apresentações com modelos vestindo-os em forma de roupas. À época, os desfiles eram extremamente focados na promoção do produto, permitindo até que os clientes encostassem nas peças usadas pelas modelos. Além disso, vale ressaltar que quem assistia aos desfiles eram os clientes. Rapidamente, as confecções de roupa adotaram o método para promover, não mais o tecido, mas a roupa propriamente dita, isto é, o produto final já pré-concebido e idealizado por um estilista. Assim, muitas pessoas que antes eram suas próprias estilistas e diziam aos costureiros como queriam suas vestimentas, passaram a ser apenas consumidores. E a partir de então, com os modelos de produção acelerando cada vez mais a confecção e a indústria cultural cada vez mais desagregando valor e agregando status às marcas, os desfiles tornaram-se o que são hoje: um espetáculo exclusivo e desvinculado do consumidor, que instaura desejo e apela para abstrações de toda natureza.  Já as modelos, que antes serviam apenas como cabides para dar movimento e visibilidade às roupas, hoje em dia servem para inspirar, provocar desejo pela peça, promover a marca, agregar status. Por essa razão, está cada vez mais comum a contratação de modelos-celebridades em desfiles de grandes marcas. Kendall Jenner talvez seja a mais representativa: a garota é fruto de um grande espetáculo, sua vida foi iluminada por holofotes em cada segundo, sua família era compostas de pessoas "famosas por serem famosas" (próximo post vai ter mais Kardashians!). Ela não era a escolha óbvia para um desfile como o da Victoria Secret's, famoso por suas modelos bombshells com corpos extremamente trabalhados, com grande carisma e sex appeal. Mas não tenha dúvida que a presença dela ali foi cuidadosamente pensada para atrair mais visualizações para o desfile, seja por aqueles que a amam ou por aqueles que amam odiá-la (esse é o efeito Kardashian...).

Mas o que seria da coleção sem o desfile e sem as (e os) modelos? Voltando a essa edição do SPFW, tivemos a tão esperada coleção da Osklen, sem nenhum desfile. A ideia de Oskar Metsavaht provavelmente foi remeter aos desfiles tradicionais, que eram feitos para o consumidor entrar em contato com o produto. Afinal, uma marca que se importa tanto com a qualidade e peculiaridade de seus tecidos, como é o caso do linho e do neoprene, não poderia aceitar que eles passassem despercebidos. E o melhor de tudo é que, apesar de a "exposição sensorial" da Osklen ter sido fechada para os convidados apenas, ela não passa de uma inauguração de uma coleção à qual todos nós teremos acesso, talvez não para comprar as peças (que continuam caras, mas que ao contrário da Riachuelo eu até defendo pela qualidade dos tecidos, que já são mais caros por si só), mas para ver, encostar, experimentar e depois não comprar nada, que é o esporte mais legal.

O texto dessa semana ficou superficial e curto, mas é culpa da Faculdade e do SPFW que me deu muito pra falar esses dias. Enfim, vejam a coleção de Ronaldo Fraga e os depoimentos dos refugiados e por favor, não comprem nada da coleção Lagerfeld+Riachuelo (só em Junho, que é quando as pontas de estoque farão com que tudo quase custe o preço que vale). Mas ainda acho que foi feio... Beijos de NICO.

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