Semana passada comecei a ler um
livro muito interessante sobre tendências, por isso hoje passarei grande parte
desse post referindo-me à ele. O livro chama-se "Sociologia das Tendências"
de Guillaume Erner, sociólogo francês especialista em sociologia do consumo. O
livro trata de várias tendências e do papel que elas representaram na
sociedade, sempre atentando a aspectos da lógica de consumo, de mercado.
Entretanto, uma parte específica
do livro me chamou muita atenção. O tópico abordava o concurso de beleza de
Keynes, para explicar como funciona o mercado das tendências. Vamos falar dessa
teoria primeiro então. Keynes, para explicar as escolhas do mercado de ações,
inventou um concurso de beleza fictício. Nesse concurso de beleza temos 6
rostos a serem escolhidos como os mais bonitos dentro de 100. O papel dos
jurados é escolher os 6 rostos mais bonitos, com a especificação de que,
ganhará o prêmio o jurado que mais se aproximar do resultado final (os 6 rostos
mais votados). Então, percebe-se que não se trata apenas de escolher os rostos
de sua preferência, mas de escolher os rostos que serão de preferência da
maioria. E mesmo assim, cada jurado teria que supôr que os outros jurados
estariam usando a mesma lógica de: "particularmente, eu votaria nesse
rosto, mas acho que aquele outro será mais votado". Deu um nó na cabeça? Vamos usar as palavras de
Keynes: "Não se trata de escolher os rostos que, no entender de cada um,
são realmente os mais lindos, nem mesmo aqueles que a opinião geral considere
realmente como tais. Alcançamos o terceiro grau, no qual empregamos a nossa
inteligência em antecipar o que a opinião geral espera que seja a opinião geral"
(Keynes, J.M. Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, 1936.)
Ufa. Mas o que isso tem a ver com
tendências? E com consumo? Tudo. Na verdade, isso explica exatamente como as
empresas tentam criar seus produtos: partir da opinião média para tentar
decidir o que a opinião média espera dos produtos. Ou seja, aquilo que os
criadores querem criar é preterido por aquilo que as empresas acreditam que os
consumidores querem que eles criem. Mas isso é ruim para a moda? Bom, talvez
não para o consumidor que, independentemente da tendência, encontra sua
subjetividade na própria combinação de
elementos (Lipovetsky). Entretanto, se os criadores estiverem sujeitos e submissos às
tendências, a subjetividade deles passa a ser comprometida, e por consequência,
a moda passa a ser refém do tempo e da opinião média.
Quando a moda é refém de um tempo, encontramo-nos em situações em que a tendência na verdade é regra, e todos vestem-se da mesma forma, agem da mesma forma, tem as mesmas preferências e os mesmos gostos. Mesmo que não sejam de fato gostos, mas imposições. Nesses momentos, nota-se a padronização do ser humano, bem como o surgimento das contraculturas.
Então não é à toa que, de tempos
em tempos, escutemos coisas como "todas as lojas vendem as mesmas
roupas" ou "as pessoas andam todas iguais". Para os que não
estão de acordo com a opinião média, isso tudo pode ser bem desinteressante.
Seria interessante decidir, pelo menos uma vez, qual é o rosto mais bonito, ou
o melhor produto, ao invés de esperar que outros tentem especular o que eles acham
que nós achamos, até porque, na vida, na moda e no mercado de ações, as pessoas
erram. Beijos de NICO.
Links:
http://madmaninvest.blogspot.com.br/2013/01/concurso-de-beleza.html
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Este é o PDF para o livro "Teoria Geral do Emprego, do Juro e da moeda". A analogia do concurso de beleza está na página 166:


