quarta-feira, 1 de junho de 2016

Tendências, Tempo e "Teoria geral do Emprego, do Juro e da Moeda"

Semana passada comecei a ler um livro muito interessante sobre tendências, por isso hoje passarei grande parte desse post referindo-me à ele. O livro chama-se "Sociologia das Tendências" de Guillaume Erner, sociólogo francês especialista em sociologia do consumo. O livro trata de várias tendências e do papel que elas representaram na sociedade, sempre atentando a aspectos da lógica de consumo, de mercado.

Entretanto, uma parte específica do livro me chamou muita atenção. O tópico abordava o concurso de beleza de Keynes, para explicar como funciona o mercado das tendências. Vamos falar dessa teoria primeiro então. Keynes, para explicar as escolhas do mercado de ações, inventou um concurso de beleza fictício. Nesse concurso de beleza temos 6 rostos a serem escolhidos como os mais bonitos dentro de 100. O papel dos jurados é escolher os 6 rostos mais bonitos, com a especificação de que, ganhará o prêmio o jurado que mais se aproximar do resultado final (os 6 rostos mais votados). Então, percebe-se que não se trata apenas de escolher os rostos de sua preferência, mas de escolher os rostos que serão de preferência da maioria. E mesmo assim, cada jurado teria que supôr que os outros jurados estariam usando a mesma lógica de: "particularmente, eu votaria nesse rosto, mas acho que aquele outro será mais votado".  Deu um nó na cabeça? Vamos usar as palavras de Keynes: "Não se trata de escolher os rostos que, no entender de cada um, são realmente os mais lindos, nem mesmo aqueles que a opinião geral considere realmente como tais. Alcançamos o terceiro grau, no qual empregamos a nossa inteligência em antecipar o que a opinião geral espera que seja a opinião geral" (Keynes, J.M. Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, 1936.)

Ufa. Mas o que isso tem a ver com tendências? E com consumo? Tudo. Na verdade, isso explica exatamente como as empresas tentam criar seus produtos: partir da opinião média para tentar decidir o que a opinião média espera dos produtos. Ou seja, aquilo que os criadores querem criar é preterido por aquilo que as empresas acreditam que os consumidores querem que eles criem. Mas isso é ruim para a moda? Bom, talvez não para o consumidor que, independentemente da tendência, encontra sua subjetividade na própria combinação  de elementos (Lipovetsky). Entretanto, se os criadores estiverem sujeitos e submissos às tendências, a subjetividade deles passa a ser comprometida, e por consequência, a moda passa a ser refém do tempo e da opinião média.
Quando a moda é refém de um tempo, encontramo-nos em situações em que a tendência na verdade é regra, e todos vestem-se da mesma forma, agem da mesma forma, tem as mesmas preferências e os mesmos gostos. Mesmo que não sejam de fato gostos, mas imposições. Nesses momentos, nota-se a padronização do ser humano, bem como o surgimento das contraculturas.


Então não é à toa que, de tempos em tempos, escutemos coisas como "todas as lojas vendem as mesmas roupas" ou "as pessoas andam todas iguais". Para os que não estão de acordo com a opinião média, isso tudo pode ser bem desinteressante. Seria interessante decidir, pelo menos uma vez, qual é o rosto mais bonito, ou o melhor produto, ao invés de esperar que outros tentem especular o que eles acham que nós achamos, até porque, na vida, na moda e no mercado de ações, as pessoas erram. Beijos de NICO.

Links:
http://madmaninvest.blogspot.com.br/2013/01/concurso-de-beleza.html
Este é o PDF para o livro "Teoria Geral do Emprego, do Juro e da moeda". A analogia do concurso de beleza está na página 166: