quarta-feira, 20 de abril de 2016

Inspiração, Iggy Azalea e Indústria Cultural

No processo criativo, aquilo que qualificamos como inspiração nunca é resultado de um raciocínio lógico, mas sim exercício do inconsciente do autor. E nesse inconsciente, não se sabe exatamente como o processo de inspiração ocorre, mas acredita-se que ele é influenciado pelas mais diversas informações do mundo externo, desde as cognoscíveis e mais acentuadas como uma conversa com outra pessoa até aquelas que passam despercebidas pelo nosso consciente, como propagandas. Para Leonard Mlodinow, por exemplo, físico autor de "Subliminar", um livro que discute como e quanto o inconsciente influencia em nossas vidas, a maior parte de nosso pensamento e da forma como vivenciamos o mundo é objeto do inconsciente. Mas o que isso significa para os criadores?
Vamos supor que o estilista Jean Croissant esteja parado no trânsito. À sua frente ele vê uma placa de carro. Acontece que essa placa dá um estalo mente do estilista, como um gatilho, e o faz ter a ideia de fazer toda uma coleção baseada nas roupas dos corredores de Fórmula 1. Entre o estalo e a ideia, aconteceram infinitas coisas no inconsciente do sr. Croissant, que nem a neurociência pode explicar ainda. Talvez tenha lembrado de sua infância vendo Speed Racer, talvez não tenha nada a ver com a sua própria vida, talvez sejam somente estímulos externos. Sabemos que não foi um puro raciciocínio lógico que levou Jean da placa à coleção. Creio até que poderia ter acontecido com qualquer um, em qualquer lugar, e Jean no trânsito é só uma das infinitas possibilidades de se chegar nessa inspiração. Se praticamente todos os estilistas do mundo passam por placas de carro todos os dias, por que algum deles teria algum direito sobre essa inspiração?

                O que acontece quando o inconsciente atua eu jamais saberei explicar, mas o fato é: em última análise é ele quem encontra as inspirações. E afinal, qual é a treta? Ter ideia todo mundo tem, ou seja, pessoas diferentes podem ter ideias muito parecidas. A proteção jurídica da propriedade intelectual não é nada mais do que a defesa do velho "eu cheguei aqui primeiro". Isso é bacana pois permite que as pessoas desenvolvam seus projetos em paz. Por exemplo, se da minha cabecinha eu tiro uma projeto genial e registro, isso impede que uma empresa grandona, cheia de dinheiro, tecnologia e recursos simplesmente pegue a minha ideia, produza muito mais rápido do que eu produziria na minha casa, e lucre absurdos com algo que se não fosse por mim não existiria (naquele momento).
                Aliás, isso remete ao famigerados suéteres do desfile Métiers d'art da Chanel que ocoreu em dezembro do ano passado. Pra quem não acompanhou, a Chanel apresentou em seu desfile uma série de suéteres masculinos de tricot Fair Isle, que é uma técnica de tricotar típica da região de Fair Isle, na Escócia. Acontece que uma designer desse tipo de tricot chamada Mati Ventrillon soltou no Facebook um relato que afirmava que funcionários da Chanel teriam visitado sua loja em Fair Isle e comprado algumas de suas peças para "pesquisa". Pelo jeito o resultado da pesquisa foram peças extremamente semelhantes sendo desfiladas nas passarelas da Chanel.  Felizmente, a grife francesa teve a decência de pedir desculpas e comprometer-se a citar a desginer nas fotos contendo os suéteres. Ainda assim, temos aí um caso em que a ideia de inspiração ultrapassou os limites do bom senso e do direito.

                Falando em falta de bom senso, não podemos deixar passar despercebido o desfile Verão 2016 com a temática "África", da Valentino. Já começaram mal pela escolha do tema: como poderiam resumir a realidade de um continente inteiro, que internamente possui tantas diferenças sociais, climáticas e culturais?  A Valentino decidiu por resumir esse continente com palavras como "primitivo" e "tribal", que foram usadas para descrever a temática na conta do Instagram da grife. Resumindo, os primeiros grandes problemas do tema foram o preconceito envolvido nas descrições e a grande banalização das culturas individuais de cada região.

                Fora isso, o desfile ainda levantou questões sobre a apropriação cultural na moda. Mas afinal, o que é apropriação cultural? Bom, de acordo com a Wikipédia (sim, por que não?), "apropriação cultural é a adoção de alguns elementos específicos de uma cultura por um grupo cultural diferente. Ela descreve aculturação ou assimilação, mas pode implicar uma visão negativa em relação a aculturação de uma cultura minoritária por uma cultura dominante." Como eu vejo esse fenômeno? Na minha opinião, quando falamos em um mundo globalizado e capitalista, não podemos colocar a "culpa" originárias da apropriação inteiramente no indivíduo, nesse caso o "artista" (e como artistas podemos entender cantores, designers, pintores, etc.). A princípio, devemos olhar para o produto e para o consumidor. Vamos tomar como exemplo a música enquanto produto. Quando pensamos, de forma geral, no rap norte-americano, que é extremamente popular no mundo todo, não conseguimos definir cultural ou etnicamente a qual grupo pertence o consumidor, pois os amantes de Kanye West ou de Eminem são brancos, negros, pardos, amarelos, e por aí vai... Agora, por alguma razão, Iggy Azalea entrou no cenário do rap gerando a polêmica de que ela, branca, estaria apropriando culturalmente um estilo musical ligado ao histórico de luta e sofrimento da cultura negra norte-americana. Mas a minha indagação é a seguinte: será que foi Azalea que se apropriou da cultura negra norte-americana, ou será que foi a lógica de mercado, que simplesmente incorporou esse estilo musical tipicamente contracultural e o transformou em um produto comercial semelhante ao pop? Não estou renegando a história do rap, nem a inegável luta dos negros por direitos em um país historicamente e constantemente racista. Quase tudo que é produzido hoje é em meio a chamada Indústria Cultural, termo cunhado pelos filósofos Max Horkheimer e Theodor Adorno, para descrever a situação  da produção artística na lógica da produção industrial. Por essa razão, a música, a arte, e mesmo a moda, quando são consumidas, estão completamente desvinculada de ideais e de significados. Isso não significa que a Indústria Cultural não desrespeite as culturas; ela desrespeita sim, e provavelmente, todas. A questão é se é estratégico culpabilizar os indivíduos por um fenômeno que pertence à estrutura capitalista na qual estamos todos inseridos, independentemente da nossa vontade. Em outras palavras, pode ser e é, em muitos casos, uma grande falha de caráter por parte dos indivíduos, mas isso não exclui o fato de que a apropriação cultural é uma manifestação típica do sistema capitalista.
                Ainda falando da apropriação de culturas, há quem defenda alguns dos casos de inspiração versus apropriação, ao afirmar que trata-se, na verdade, de uma homenagem à cultura. Se a Valentino usasse esse discurso não teria muito fundamento, afinal, você deve conhecer e respeitar aquilo que homenageia. Mas em alguns casos, a ética e o profissionalismo tornam essa apropriação, de certa forma, e com inúmeras ressalvas, quase defensável. É o caso de Oskar Metsavaht, diretor criativo da Osklen. O estilista não apenas se inspirou na cultura dos índios Asháninka, comunidade que vive na floresta amazônica, mas também desenvolveu junto a eles um projeto social, pois o dinheiro pago pela utilização de tecidos e tatuagens tradicionais da tribo foi redirecionado pelos índios para a realização de melhorias na comunidade, como a construção de uma escola. Essas informações, assim como uma entrevista com Oskar estão contidas num artigo da Huffpost Brasil, cujo link está disponibilizado logo no fim desse texto.


                Enfim, minhas opiniões sobre apropriação cultural são apenas as minhas opiniões. Adoraria ouvir outras, afinal, creio que o tema ainda não é muito explorado no meio da indústria da moda, ou pelo menos, não tanto quanto deveria. A moda, enquanto existir, terá muito o que aprender sobre ética e respeito às culturas. Mas por ora, tomemos pessoas como Oskar Metsavaht como exemplo. Beijos de NICO.

Entrevista com Oskar Metsavaht:

Outros links:

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comenta aí. Com elegância.