No processo criativo, aquilo que
qualificamos como inspiração nunca é resultado de um raciocínio lógico, mas sim
exercício do inconsciente do autor. E nesse inconsciente, não se sabe
exatamente como o processo de inspiração ocorre, mas acredita-se que ele é
influenciado pelas mais diversas informações do mundo externo, desde as
cognoscíveis e mais acentuadas como uma conversa com outra pessoa até aquelas
que passam despercebidas pelo nosso consciente, como propagandas. Para Leonard
Mlodinow, por exemplo, físico autor de "Subliminar", um livro que
discute como e quanto o inconsciente influencia em nossas vidas, a maior parte
de nosso pensamento e da forma como vivenciamos o mundo é objeto do
inconsciente. Mas o que isso significa para os criadores?
Vamos supor que o estilista Jean
Croissant esteja parado no trânsito. À sua frente ele vê uma placa de carro.
Acontece que essa placa dá um estalo mente do estilista, como um gatilho, e o
faz ter a ideia de fazer toda uma coleção baseada nas roupas dos corredores de
Fórmula 1. Entre o estalo e a ideia, aconteceram infinitas coisas no
inconsciente do sr. Croissant, que nem a neurociência pode explicar ainda.
Talvez tenha lembrado de sua infância vendo Speed Racer, talvez não tenha nada
a ver com a sua própria vida, talvez sejam somente estímulos externos. Sabemos
que não foi um puro raciciocínio lógico que levou Jean da placa à coleção.
Creio até que poderia ter acontecido com qualquer um, em qualquer lugar, e Jean
no trânsito é só uma das infinitas possibilidades de se chegar nessa inspiração.
Se praticamente todos os estilistas do mundo passam por placas de carro todos
os dias, por que algum deles teria algum direito sobre essa inspiração?

O
que acontece quando o inconsciente atua eu jamais saberei explicar, mas o fato
é: em última análise é ele quem encontra as inspirações. E afinal, qual é a
treta? Ter ideia todo mundo tem, ou seja, pessoas diferentes podem ter ideias
muito parecidas. A proteção jurídica da propriedade intelectual não é nada mais
do que a defesa do velho "eu cheguei aqui primeiro". Isso é bacana
pois permite que as pessoas desenvolvam seus projetos em paz. Por exemplo, se
da minha cabecinha eu tiro uma projeto genial e registro, isso impede que uma
empresa grandona, cheia de dinheiro, tecnologia e recursos simplesmente pegue a
minha ideia, produza muito mais rápido do que eu produziria na minha casa, e
lucre absurdos com algo que se não fosse por mim não existiria (naquele
momento).
Aliás,
isso remete ao famigerados suéteres do desfile Métiers d'art da Chanel que
ocoreu em dezembro do ano passado. Pra quem não acompanhou, a Chanel apresentou
em seu desfile uma série de suéteres masculinos de tricot Fair Isle, que é uma
técnica de tricotar típica da região de Fair Isle, na Escócia. Acontece que uma
designer desse tipo de tricot chamada Mati Ventrillon soltou no Facebook um
relato que afirmava que funcionários da Chanel teriam visitado sua loja em Fair
Isle e comprado algumas de suas peças para "pesquisa". Pelo jeito o
resultado da pesquisa foram peças extremamente semelhantes sendo desfiladas nas
passarelas da Chanel. Felizmente, a
grife francesa teve a decência de pedir desculpas e comprometer-se a citar a
desginer nas fotos contendo os suéteres. Ainda assim, temos aí um caso em que a
ideia de inspiração ultrapassou os limites do bom senso e do direito.

Falando
em falta de bom senso, não podemos deixar passar despercebido o desfile Verão
2016 com a temática "África", da Valentino. Já começaram mal pela
escolha do tema: como poderiam resumir a realidade de um continente inteiro,
que internamente possui tantas diferenças sociais, climáticas e culturais? A Valentino decidiu por resumir esse
continente com palavras como "primitivo" e "tribal", que
foram usadas para descrever a temática na conta do Instagram da grife.
Resumindo, os primeiros grandes problemas do tema foram o preconceito envolvido
nas descrições e a grande banalização das culturas individuais de cada região.

Fora
isso, o desfile ainda levantou questões sobre a apropriação cultural na moda.
Mas afinal, o que é apropriação cultural? Bom, de acordo com a Wikipédia (sim,
por que não?), "apropriação cultural é a adoção de alguns elementos específicos de uma
cultura por um grupo cultural diferente. Ela descreve aculturação
ou assimilação, mas pode implicar uma visão negativa em relação a aculturação
de uma cultura minoritária por uma cultura dominante." Como eu vejo
esse fenômeno? Na minha opinião, quando falamos em um mundo globalizado e
capitalista, não podemos colocar a "culpa" originárias da apropriação inteiramente
no indivíduo, nesse caso o "artista" (e como artistas podemos
entender cantores, designers, pintores, etc.). A princípio, devemos olhar para
o produto e para o consumidor. Vamos tomar como exemplo a música enquanto
produto. Quando pensamos, de forma geral, no rap norte-americano, que é
extremamente popular no mundo todo, não conseguimos definir cultural ou etnicamente
a qual grupo pertence o consumidor, pois os amantes de Kanye West ou de Eminem
são brancos, negros, pardos, amarelos, e por aí vai... Agora, por alguma razão,
Iggy Azalea entrou no cenário do rap gerando a polêmica de que ela, branca,
estaria apropriando culturalmente um estilo musical ligado ao histórico de luta
e sofrimento da cultura negra norte-americana. Mas a minha indagação é a
seguinte: será que foi Azalea que se apropriou da cultura negra
norte-americana, ou será que foi a lógica de mercado, que simplesmente
incorporou esse estilo musical tipicamente contracultural e o transformou em um
produto comercial semelhante ao pop? Não estou renegando a história do rap, nem
a inegável luta dos negros por direitos em um país historicamente e constantemente racista.
Quase tudo que é produzido hoje é em meio a chamada Indústria Cultural, termo
cunhado pelos filósofos Max Horkheimer e Theodor Adorno, para descrever a
situação da produção artística na lógica
da produção industrial. Por essa razão, a música, a arte, e mesmo a moda,
quando são consumidas, estão completamente desvinculada de ideais e de
significados. Isso não significa que a Indústria Cultural não desrespeite as
culturas; ela desrespeita sim, e provavelmente, todas. A questão é se é estratégico culpabilizar os indivíduos por um fenômeno que pertence à estrutura capitalista na qual estamos todos inseridos, independentemente da nossa vontade. Em outras palavras, pode ser e é, em muitos casos, uma grande falha de caráter por parte dos indivíduos, mas isso não exclui o fato de que a apropriação cultural é uma manifestação típica do sistema capitalista.
Ainda
falando da apropriação de culturas, há quem defenda alguns dos casos de inspiração
versus apropriação, ao afirmar que trata-se, na verdade, de uma homenagem à
cultura. Se a Valentino usasse esse discurso não teria muito fundamento,
afinal, você deve conhecer e respeitar aquilo que homenageia. Mas em alguns
casos, a ética e o profissionalismo tornam essa apropriação, de certa forma, e com inúmeras ressalvas, quase defensável.
É o caso de Oskar Metsavaht, diretor criativo da Osklen. O estilista não apenas
se inspirou na cultura dos índios Asháninka, comunidade que vive na floresta
amazônica, mas também desenvolveu junto a eles um projeto social, pois o
dinheiro pago pela utilização de tecidos e tatuagens tradicionais da tribo foi
redirecionado pelos índios para a realização de melhorias na comunidade, como a
construção de uma escola. Essas informações, assim como uma entrevista com
Oskar estão contidas num artigo da Huffpost Brasil, cujo link está
disponibilizado logo no fim desse texto.

Enfim,
minhas opiniões sobre apropriação cultural são apenas as minhas opiniões.
Adoraria ouvir outras, afinal, creio que o tema ainda não é muito explorado no meio da indústria da moda, ou
pelo menos, não tanto quanto deveria. A moda, enquanto existir, terá muito o que aprender
sobre ética e respeito às culturas. Mas por ora, tomemos pessoas como Oskar
Metsavaht como exemplo. Beijos de NICO.
Entrevista com Oskar Metsavaht:
Outros links: