quinta-feira, 14 de abril de 2016

Falso, Freud e Fendi

                Quem ainda acha que falsificações são "toscas" ou mal feitas deve ter parado de perceber que está rodeado por elas. As falsificações hoje estão tão reais que muitos produtos, e são muitos mesmo, perdem seu valor por remeterem às falsificações. Eu mesma, se tivesse dinheiro pra isso, é claro, não o gastaria com um mocassim da Louis Vuitton (daqueles com o LV dourado bem evidente). E a imagem deve passado pela cabeça de alguns, porque não se trata de uma peça necessariamente icônica, mas de uma peça extremamente popular, ou seja, qualquer um que ande de metrô, já viu o dito cujo no pé de alguém.

                 Mas, voltando às boas falsificações, eu sugiro que os céticos dêem uma boa olhada em uma bolsa 2.55 na Chanel e depois dêem um passeio pelas galerias da Liberdade, no centro de São Paulo, e me apontem as diferenças. Talvez um especialista em couros, talvez outro em metais, mas eu garanto, não será você que dirá qual é qual. O forro é impecável, as costuras perfeitas, e pasmem, os chineses até falsificam o certificado de autenticidade! Para o consumidor comum, a única diferença que pode ser apontada é o fato de você mesmo saber onde comprou a sua 2.55. Nada mais. Agora, eu não estou tentando incetivar o consumo de produtos falsos, muito pelo  contrário, pretendo citar incansáveis exemplos do porquê essa compra é uma cilada.

                O primeiro desses motivos é: você não vai ficar satisfeito, nem por um segundo, por ter comprado um produto falso. Se não acredita, faça o seguinte experimento: pegue água do filtro, coloque em uma garrafa Perrier, beba. Não deixa de ser água, não deixa de matar a sede, mas no seu coraçãozinho trapaceiro, você sabe que não é a mesma coisa. Não estou dizendo que água Perrier é melhor que do filtro, sinceramente, o gosto pra mim é a mesma coisa. Mas a sensação não é igual. O que eu quero dizer com isso? Adquirir uma bolsa 2.55 da Chanel não é um simples consumo, é um processo de satisfação de um desejo. E satisfazer um desejo não envolve apenas a aquisição do objeto do desejo, mas também um bando de sensações e requisitos abstratos que incluem o processo de aquisição do objeto. Simplificando, se você não acreditar veementemente que aquela bolsa passou pelas mãos de funcionários da indústria da Chanel na França, ela jamais será a sua tão sonhada 2.55.

                Todos nós estamos sujeitos a essa vontade de sublimar os desejos de consumo com produtos falsos. Mas é aquela história né? A gente até pode enganar os outros, mas não consegue mentir pra si mesmo... Eu passei por isso recentemente, e eu culpo Karl Lagerfeld por isso. Desde que surgiram, aquelas Peekaboo bags da Fendi com os olhos de monstrinhos na parte interna têm sido o meu sonho de consumo. Não vou nem falar dos chaveiros peludinhos... Enfim, eu sou uma estudante em São Paulo, ou seja, não tenho 15 mil reais pra gastar, quem dirá numa bolsa. Então, andando por uma daquelas galerias de produtos chineses na Av. Paulista, deparei-me com um quiosque que vendia bolsas de grife, ao que tudo indica, falsas. Ao ver a bolsa zóiudinha ali, não resisti, tive que dar uma olhada. Como eu disse, forro impecável, acabamento perfeito. Talvez eu até fosse contra os meus princípios e cedesse à tentação se eu não tivesse levado um susto com o preço. Eu não tenho 1.200 reais pra gastar numa bolsa, quem dirá numa bolsa falsa. E aí bate aquela tristeza, não só em mim mas em todos que passam por isso todos os dias, constatando o que o filósofo Gilles Lipovetsky chama de "sociedade da decepção". O fato é que nunca estamos consumindo tanto quanto gostaríamos, nunca temos o dinheiro necessário pra ter tudo aquilo que desejamos.
                Falamos muito do consumidor, vamos falar agora do outro lado:  a empresa. Faça um outro exercício agora: entre no site da marca Christian Louboutin, não se distraia com as coleções, clique em "contact us", depois em "other inquires", e por último, clique em "Stopfake". Você será redirecionado para a página menos glamurosa do site. Essa parte trata apenas de várias e várias ações da marca Louboutin contra os falsificadores por todo o mundo. Além disso, há ainda as ações contra as marcas que violam a "red sole trademark", isto é, marcas que utilizam em seus sapatos solas vermelhas (que foram registradas por Louboutin). A questão do registro sobre a sola vermelha e o auê que isso causou no mundo da moda e do direito fica pra outro dia. O que eu queria mostrar com esse exercício é que grifes de renome passam por um esforço que percorre o globo para encontrar as falsificações de seus produtos e tirá-las de circulação. Até podemos pensar que existe algo de lisonjeiro em ter tantas cópias de seus produtos espalhadas pelo mundo. No entanto, essas cópias, há quem diga, não causam nada além de danos. Não há concorrente mais desleal do que aquele que vende a sua ideia por um preço infinitamente menor (não tão infinitamente no caso da Peekaboo). Afinal, quem despertou o desejo no consumidor? Fez um desfile monumental para valorizar os produtos expostos? Contratou uma Kendall Jenner ou uma Gigi Hadid para portar as peças? Tudo isso pra quê? Para que o consumidor decida pelo produto falsificado? Sim, eu entendo, nessa hora o bolso fala mais alto. Meu conselho? Inspirações e brechós. Cada um dos dois merece um post em separado, então o papo fica pra outro dia. Mas espero que essa longa conversa tenha tenha causado algum efeito em alguém! Beijos de NICO.

PS: Pra quem quiser aprofundamento nesses temas de sociologia da moda fica Gilles Lipovetsky como dica.

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