Quem
ainda acha que falsificações são "toscas" ou mal feitas deve ter
parado de perceber que está rodeado por elas. As falsificações hoje estão tão
reais que muitos produtos, e são muitos mesmo, perdem seu valor por remeterem
às falsificações. Eu mesma, se tivesse dinheiro pra isso, é claro, não o
gastaria com um mocassim da Louis Vuitton (daqueles com o LV dourado bem
evidente). E a imagem deve passado pela cabeça de alguns, porque não se trata
de uma peça necessariamente icônica, mas de uma peça extremamente popular, ou seja,
qualquer um que ande de metrô, já viu o dito cujo no pé de alguém.
Mas, voltando às boas falsificações, eu sugiro
que os céticos dêem uma boa olhada em uma bolsa 2.55 na Chanel e depois dêem um
passeio pelas galerias da Liberdade, no centro de São Paulo, e me apontem as
diferenças. Talvez um especialista em couros, talvez outro em metais, mas eu
garanto, não será você que dirá qual é qual. O forro é impecável, as costuras
perfeitas, e pasmem, os chineses até falsificam o certificado de autenticidade!
Para o consumidor comum, a única diferença que pode ser apontada é o fato de você mesmo saber onde comprou a sua 2.55. Nada mais. Agora, eu não estou tentando incetivar o consumo
de produtos falsos, muito pelo
contrário, pretendo citar incansáveis exemplos do porquê essa compra é
uma cilada.
O
primeiro desses motivos é: você não vai ficar satisfeito, nem por um segundo,
por ter comprado um produto falso. Se não acredita, faça o seguinte
experimento: pegue água do filtro, coloque em uma garrafa Perrier, beba. Não
deixa de ser água, não deixa de matar a sede, mas no seu coraçãozinho
trapaceiro, você sabe que não é a mesma coisa. Não estou dizendo que água
Perrier é melhor que do filtro, sinceramente, o gosto pra mim é a mesma coisa.
Mas a sensação não é igual. O que eu quero dizer com isso? Adquirir uma bolsa
2.55 da Chanel não é um simples consumo, é um processo de satisfação de um
desejo. E satisfazer um desejo não envolve apenas a aquisição do objeto do
desejo, mas também um bando de sensações e requisitos abstratos que incluem o
processo de aquisição do objeto. Simplificando, se você não acreditar
veementemente que aquela bolsa passou pelas mãos de funcionários da indústria
da Chanel na França, ela jamais será a sua tão sonhada 2.55.
Todos
nós estamos sujeitos a essa vontade de sublimar os desejos de consumo com produtos
falsos. Mas é aquela história né? A gente até pode enganar os outros, mas não consegue
mentir pra si mesmo... Eu passei por isso recentemente, e eu culpo Karl
Lagerfeld por isso. Desde que surgiram, aquelas Peekaboo bags da Fendi com os
olhos de monstrinhos na parte interna têm sido o meu sonho de consumo. Não vou
nem falar dos chaveiros peludinhos... Enfim, eu sou uma estudante em São Paulo,
ou seja, não tenho 15 mil reais pra gastar, quem dirá numa bolsa. Então,
andando por uma daquelas galerias de produtos chineses na Av. Paulista,
deparei-me com um quiosque que vendia bolsas de grife, ao que tudo indica,
falsas. Ao ver a bolsa zóiudinha ali, não resisti, tive que dar uma olhada.
Como eu disse, forro impecável, acabamento perfeito. Talvez eu até fosse contra
os meus princípios e cedesse à tentação se eu não tivesse levado um susto com o
preço. Eu não tenho 1.200 reais pra gastar numa bolsa, quem dirá numa bolsa
falsa. E aí bate aquela tristeza, não só em mim mas em todos que passam por
isso todos os dias, constatando o que o filósofo Gilles Lipovetsky chama de "sociedade
da decepção". O fato é que nunca estamos consumindo tanto quanto
gostaríamos, nunca temos o dinheiro necessário pra ter tudo aquilo que desejamos.
Falamos
muito do consumidor, vamos falar agora do outro lado: a empresa. Faça um outro exercício agora:
entre no site da marca Christian Louboutin, não se distraia com as coleções,
clique em "contact us", depois em "other inquires", e por
último, clique em "Stopfake". Você será redirecionado para a página
menos glamurosa do site. Essa parte trata apenas de várias e várias ações da
marca Louboutin contra os falsificadores por todo o mundo. Além disso, há ainda
as ações contra as marcas que violam a "red sole trademark", isto é,
marcas que utilizam em seus sapatos solas vermelhas (que foram registradas por
Louboutin). A questão do registro sobre a sola vermelha e o auê que isso causou
no mundo da moda e do direito fica pra outro dia. O que eu queria mostrar com
esse exercício é que grifes de renome passam por um esforço que percorre o
globo para encontrar as falsificações de seus produtos e tirá-las de circulação.
Até podemos pensar que existe algo de lisonjeiro em ter tantas cópias de seus
produtos espalhadas pelo mundo. No entanto, essas cópias, há quem diga, não causam nada além de danos.
Não há concorrente mais desleal do que aquele que vende a sua ideia por um
preço infinitamente menor (não tão infinitamente no caso da Peekaboo). Afinal,
quem despertou o desejo no consumidor? Fez um desfile monumental para valorizar
os produtos expostos? Contratou uma Kendall Jenner ou uma Gigi Hadid para
portar as peças? Tudo isso pra quê? Para que o consumidor decida pelo produto
falsificado? Sim, eu entendo, nessa hora o bolso fala mais alto. Meu conselho?
Inspirações e brechós. Cada um dos dois merece um post em separado, então o
papo fica pra outro dia. Mas espero que essa longa conversa tenha tenha causado
algum efeito em alguém! Beijos de NICO.
PS: Pra quem quiser
aprofundamento nesses temas de sociologia da moda fica Gilles Lipovetsky como dica.


